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OPINIÃO

No meio de tanto barulho, você saberia silenciar?

. A criticidade, na minha concepção, tem a ver com o discernimento de promover, constantemente, interrogações sobre caminhos individuais e coletivos, na tentativa de ajustar, de maneira equilibrada, os limites entre o acelerador e o freio

Karine Aragão

Karine Aragão Karine Aragão é escritora, professora e Doutora em Literatura e Cultura Contemporânea pela PUC-Rio. Desenvolve vídeos para o Instagram em que fala, de forma simples e espontânea, sobre teorias sociais que circundam as formas de interpretar e de viver o mundo contemporâneo. Sua principal preocupação refere-se à recuperação do lugar dos afetos e à construção de um conhecimento que vá de encontro à superficialidade dos dias atuais. Em 2016, publicou um romance Young-Adult – “A teia dos sonhos”.

31/05/2019 13h10Atualizado há 2 semanas
Por: Paraíba 10
Fonte: Karine Aragão/Paraíba 10
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Vivo a contemporaneidade e a encaro com olhos críticos. Não a partir de uma visão negativa, desiludida e desacreditada, estou bem longe de ser uma pessoa pessimista. A criticidade, na minha concepção, tem a ver com o discernimento de promover, constantemente, interrogações sobre caminhos individuais e coletivos, na tentativa de ajustar, de maneira equilibrada, os limites entre o acelerador e o freio. Esse é o meu conceito de “felicidade consciente”. Mas voltemos a uma palavra importante para pensarmos qualquer pressuposto sobre inteligência emocional: equilíbrio. A difícil arte de encontrar o meio termo, de pisar exatamente no centro do trapézio, de cortar a maçã em duas partes iguais, de não gastar de mais, nem de menos, de não dormir nem muito, nem pouco, de se permitir correr riscos, mas também se preservar, de saber o que é sonho e o que é delírio entre a calmaria e o mar aberto, de não ser nem uma pessoa alienada, nem aquela que precisa postar sua opinião no Twitter sobre tudo o que acontece a cada segundo no mundo, como se fosse detentora suprema de todos os saberes: religião, direito, educação, cultura, história... Estamos em tempos de palanques virtuais, por onde circula a quase obrigatoriedade de que todos se pronunciem. Uma mistura entre superficialidade, narcisismo e espetacularização. 

Nesse fluxo contínuo de discursos, tenho percebido uma certa confusão sobre a análise do que pode ser validado como “argumento de autoridade”. Tenho encontrado muita gente que confunde “informação” e “conhecimento”, “documento histórico” e “mensagem do WhatsApp”, “pesquisa acadêmica” e “tweets”, “discordância” e “confusão”, “liberdade” e “agressão”, “vulnerabilidade” e “fraqueza”... Enfim, a lista é enorme... Você também já deve ter feito a sua... Nietzsche declarou a morte da idolatria, e eu concordo com ele. Não precisamos de ídolos para seguir numa estrada cega, abdicando de nossa capacidade reflexiva. Não precisamos de perspectivas unilaterais. O que expande nosso campo de interpretação é o diálogo, a troca, a multiplicidade, o “Será que precisa mesmo ser assim?”

O francês Gilles Lipovetsky desenvolveu um embasado estudo sobre os nossos atuais modos de viver a Hipermodernidade. De todas as teses que perpassam uma apreensão potencialmente crítica da realidade, o que, hoje, mais me fica diz respeito ao que ele chama de “processo de aquisição informacional”, estabelecendo um contraponto entre quantidade e qualidade. O indivíduo que pretende priorizar o número de informações que pode absorver horizontaliza esse processo e não transforma uma reportagem em conhecimento, por exemplo. Limita-se a uma leitura superficial, sem considerar as inferências. Querer dar conta de tudo é embarcar num processo sufocante de aceleração do tempo - e isso vale para todos os aspectos da vida. Já o sujeito que escolhe a qualidade informacional verticaliza a apreensão e, admitindo que não é capaz de saber sobre tudo, opta por consolidar as áreas de conhecimento que determinou importantes para si. Esse “sujeito do diálogo” reconhece que não necessita absorver tudo que o atravessa, como se estivesse em uma corrida para avaliar quem sabe mais, em constante disputa. Tem consciência de que elogiar uma outra  pessoa e reconhecer que ela pode deter mais conhecimentos sobre tal assunto não é autoinferiorização, é equilíbrio. Esse “sujeito do diálogo” adora ouvir histórias, compartilhar experiências e afetos. “Sujeitos do diálogo” andam por aí, sem fazer alarde, valorizando os momentos de silêncio e de escuta, tentando recuperar a harmonia da vivência em espaço público. 

Você conhece algum?

 

Por: Karine Aragão/Paraíba 10

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