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OPINIÃO

Se você abrisse suas canções hoje, elas teriam o essencial?

Eis o momento em que articular subjetividade e racionalidade pode sugerir um bom caminho.

Karine Aragão

Karine Aragão Karine Aragão é escritora, professora e Doutora em Literatura e Cultura Contemporânea pela PUC-Rio. Desenvolve vídeos para o Instagram em que fala, de forma simples e espontânea, sobre teorias sociais que circundam as formas de interpretar e de viver o mundo contemporâneo. Sua principal preocupação refere-se à recuperação do lugar dos afetos e à construção de um conhecimento que vá de encontro à superficialidade dos dias atuais. Em 2016, publicou um romance Young-Adult – “A teia dos sonhos”.

13/06/2019 09h51
Por: Paraíba 10
Fonte: Karine Aragão/Paraíba 10
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Por esses dias, conheci os quadros do pintor norte-americano Edward

Hopper. Quem me levou até eles foi o livro “A hora de alimentar serpentes”, da

escritora Marina Colasanti. Diante de micro narrativas como “É você?”,

“Pequena delicadeza” e “Em algum ponto”, fui atirada ao universo de Hopper,

me vi como a mulher que lê uma carta num quarto de hotel, percorri toda

imobilidade afetiva traçada pelo distanciamento do casal em “Noite de verão”,

compreendi que a solidão mais latente é aquela que acontece quando sentimos

uma dificuldade dramática de estabelecer conexões, mesmo com tantas

pessoas ao nosso redor.

Permeada pela melancolia, pelo vazio, pelo desencontro dos

personagens de Colasanti e de Hopper - e com um interesse já meu, muito

próprio, pelas histórias que poderiam ser e não são - fiquei, aqui, me

perguntando: por que a contemporaneidade se revela como um tempo em que

é tão difícil estabelecer vínculos? Por que as conexões interpessoais têm sido

caracterizadas pela superficialidade, pela premissa da superioridade, pela

liquidez?

Eu tenho algumas suspeitas... e todas se articulam a um sintoma

preocupante: o trabalho invadiu nossa vida privada, jogou pela janela nossa

subjetividade e está, com muito esforço, tentando nos dizer que não nos é

permitido estar off-line, que não devemos falhar, que não podemos duvidar,

que assumir os erros, a vulnerabilidade, as experiências ruins é caminho direto

para o fracasso eterno. A racionalização absoluta vai criando polarizações,

como se a fragilidade fosse oposta à coragem, quando, na verdade, as duas

são peças de um mesmo conjunto (lembrando a maravilhosa palestra de Brené

Brown - The call to courage- tem no Netflix!!): quem se atira à arena e se

coloca em posição de instabilidade mostra que conserva, em si, a característica

da audácia, fundamental à abertura de novos rumos.

Isso não significa que, para desenvolvermos nossa subjetividade, é

necessário desinstalar o WhatsApp e prescindir de todo progresso

informacional, sem qualquer tipo de planejamento, deixando a sorte nos

governar. A questão não é bem por aí. O que eu considero pungente e urgente

é que estejamos em constante tentativa de equilíbrio entre a vida real e a

virtual, entre a história que eu tenho hoje e os caminhos traçados para alcançar

a que eu gostaria, entre o grito e o silêncio, entre o comodismo e a perfeição. A

perfeição inalcançável de um admirável mundo novo. Talvez, assim, quando

começarmos a escrever uma história em que estranhemos esse cotidiano

bélico em vez de nos adaptarmos a ele, uma história que não tenha como

roteiro: “ser sempre melhor do que o outro, escondendo qualquer possibilidade

de imperfeição”, possamos fundir, conectar nossas narrativas.

 

Talvez, se permitirmos que as linhas sigam com mais leveza, uma letra

atrás da outra, a gente acabe descobrindo que a vida é sempre sobre a nossa

decisão de embarcar ou não, de jogar tênis - numa busca sedenta por

encontrar os pontos de vulnerabilidade do outro - ou frescobol - procurando a

melhor maneira de fazer o jogo durar (nos diria Rubem Alves). Porque,

sinceramente, eu não quero viver o meu tempo pensando em estratégias para

me mostrar invencível e inabalável, eu não quero viver acuada como se as

pessoas que estivessem ao meu lado fossem inimigas em potencial, eu não

quero viver armada, pronta para guerra. E, tendo consciência de que esse

processo não é fácil, sei que cabe a mim escolher bem as pessoas que

dividirão comigo essa jornada.

Eis o momento em que articular subjetividade e racionalidade pode

sugerir um bom caminho. De modo mais claro, te digo: essa é a hora de

empoderar a nossa auto responsabilidade diante dos caminhos que estamos

percorrendo. Algumas situações na vida são puramente acidentais, contudo, há

outras que dependem, e muito, das nossas escolhas. Focalize essas! Quem

quer enxergar tudo acaba cego, ou louco, ou fatigado... Quem quer todas as

pessoas a seu lado - mesmo as tóxicas - está pedindo doses diárias de

veneno. Não é preciso tamanho alarde para se desfazer desse frasco - sem

espetaculização, ok? - basta abrir a lixeira e despejar. Fazer seleções é

difícil, mas, enquanto continuarmos simplesmente acumulando objetos e

relacionamentos - obedecendo a uma lógica de mercado - vamos esquecendo

o que é verdadeiramente importante.

Observe com atenção: criar falsas necessidades coletivas, estimular seu

constante “querer” é característico de uma cultura mercadológica. A própria

polarização ideológica - incentivada por alguns veículos midiáticos, com

notícias falsas e apelativas - é, também, uma estratégia de consumo, pois

valoriza o sentimento de massificação e, assim, quando mitiga a singularidade,

torna mais fácil, e menos trabalhosa, a encomenda de um produto por

demanda. Para potencializar essa reflexão, vale muito assistir ao filme “A

onda”, do diretor Dennis Gansel. A criação do uniforme, a saudação... quantas

imagens passam agora pela minha cabeça...

Minha bagagem cultural - para voltar a Colasanti - é uma mistura entre

literatura, cinema, filosofia, pintura, música e sala de aula, e isso me faz quem

eu sou, demarcando minhas escolhas. Termino aqui, então, perguntando: quais

são as experiências que te fizeram ser quem você é hoje? As canções que

você traz carregam o que é realmente essencial?

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